A cidade filmada: o filme como patrimônio da memória coletiva

Mini Curso com projeção de documentários (extratos):
O filme como patrimônio da memória coletiva e a pesquisa em acervo fílmico para construção da memória da cidade.
27 de setembro - 14hs
Local: Cinema Redenção


A cidade filmada: o filme como patrimônio da memória coletiva e a construção do imaginário urbano brasileiro nas narrativas documentais

Profa. Dra. Maria Henriqueta Credy Satt (PUCRS)

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Falar sobre a cidade filmada nos documentários, ou mesmo se entregar a essas imagens, é ao mesmo tempo fascinante e um desafio. Sempre lembro de uma fala do Edgard Morin que dizia que  passamos a maior parte do tempo vivendo e não pensando. 
O desafio está em perceber que os documentários urbanos são portadores dessa ambigüidade. Ao mesmo tempo que nos trazem experiências cognitivas familiares, já que se oferecem como imagem - dado fundamental para nosso conhecimento do mundo -, podem nos provocar um estranhamento. O estranhamento do outro, de sua cultura, de sua imagem, de sua lógica de mundo. É mesmo uma viagem ao mundo do outro, uma viagem xamânica e sensorial,  como sugeriu Da Matta.   

A gente sabe, por experiência própria, que viver nas cidades, nesse século XXI é estar submerso em plurais e ininterruptos fluxos de imagens Mídia, câmeras, televisão, internet, webcams,celulares, câmeras de vigilância e tantos outros dispositivos de  produção e veiculação de imagens que moldam nossa sensibilidade de homens contemporâneos. 

Pode parecer óbvio demais dizer que pra nossa cultura urbana, a experiência de mundo passa, em grande parte, pela imagem mediada, mídiatica; transformar-se em discurso áudio-visual, ofertar-se como imagem é hoje uma das normas de afirmação de existência para o mundo e no mundo. Nunca se produziu e se fez circular tantas imagens, vejam o youtube, para citar um dos mais impressionantes exemplos de todos os tempos . Se quiséssemos parávamos por aqui e só reprocessávamos, remontávamos, rearranjávamos esse vasto patrimônio de imagens materiais legados pela humanidade.

É por aí também que passa a nossa experiência de metrópole, de cidade, de vida urbana. Uma experiência de exacerbação dos sentidos nos propondo multiplicidades, descontinuidades e desafios constantes à nossa forma de durar no mundo, de edificar nossas memórias, e empreender nossa luta contra o tempo, contra o esquecimento e contra a morte.  ( o instante qq que virá O instante. Memória cheia e a decisão de qual instante guardar. Uma outra seleção)

O documentário e as pessoas que trabalham com produções de imagens se defrontam hoje com esse mundo que já se dá como imagem. Um mundo onde cada imagem desliza sobre outra imagem, como escreveu o crítico Serge Daney. Um mundo atravessado por uma crescente roteirização das relações sociais, dos roteiros normatizadores que se instalam em todo lugar.  Como filmar esse mundo?   Como falar das cidades que nos habitam? Cidades que se conformam em nossa imaginação não somente por nossas artes de vivê-las, mas, sobretudo, por nossa experiência mediada pela  diversidade de tecnologias do imaginário? Como filmar a cidade sem esbarrar em clichês, em esquemas interpretativos, em fórmulas fáceis e já tão íntimas e incorporadas em nosso dia a dia? A cidade nos chega a partir de tantos filmes, programas de televisão, blogs, imagens de telejornais.  Códigos do realismo, como diz a Beatriz Jaguaribe, que  acabam por exercer um poder pedagógico sobre a nossa percepção de realidade, sobre o nosso imaginário de viver nas cidades urbano-contemporâneas.  

Portanto, para nós produtores de narrativas audiovisuais, falar nessa relação entre documentário e cidade é também refletir    sobre as formas de discursos e negociações trans-subjetivas que estão em jogo, em uma constante negociação entre as imagens do mundo, quem filma, como filma, o que filma, quem é filmado e quem recebe essas imagens.

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Talvez seja importante pensar no documentarista como um sujeito urbano, que partilha e expressa em seus filmes um imaginário comum, atualizando e recriando a memória da cidade. Essa perspectiva nos traz a dimensão do documentário habitado pelo espírito de fabulação, de invenção, de imaginação.
Em  “O ar e os sonhos: ensaio sobre a imaginação do movimento”,  bachelard nos fala que a imaginação não é a faculdade de formar imagens, mas a faculdade de deformar imagens. 
É a partir dessa perspectiva bachelardiana que estamos autorizados a desintegrar o senso comum, de rasgar o roteiro que nos diz que o documentário, por filmar o real, tem um caráter objetivo, de reprodução de um mundo histórico. Ambição que, muitas vezes, essas narrativas do real, com suas metas de noticiar e construir a memória do mundo, nos  fazem crer.

Dessa perspectiva os documentários urbanos, nosso olhar de documentaristas sobre a cidade, nossas construções das cidades documentais seriam ,na esteira da noção de paisagem de Georg Simmel :
Pontos de vista estéticos e atmosféricos, pedaços de mundo destacados e  arrancados de um todo qualquer,  que ao mundo retornam como imagens. 
Ora, sabemos que um ponto de vista nunca é objetivo, pois, nos dirá Durand, a contemplação do mundo já é ela mesma uma transformação.  
“Contemplar é transformar, pois não podemos separar a imaginação das imagens concretas. Contemplar é acionar nossa ação imaginante, é convocar um enxame de imagens .
O documentário pensado então como uma máquina simbólica de produzir pontos de vista. Todos os pontos de vista imagináveis, aqueles do imaginário.

Comolli: “a cidade do cineasta tem mais chances de existir nos filmes do que em outros lugares”. Uma cidade documental (re)inventada simbolicamente nas imagens, constituída pelo gesto criador do documentarista em inter-relação com as pessoas e lugares que elege como pedaços de mundo e que ao mundo retornam como imagens. Um pedaço de mundo que nos olha, segundo Comolli, tomando-nos como sujeitos do olhar, colocando-nos no poder do olhar do outro. Possibilitando a nós, espectadores, olhar a cidade através do olhar do documentarista, de seu “mundo simbólico e criativo”. (Ana Rocha e Cornélia Eckert). 

Essa cidade documental, portanto,  é modulada por fluxos da ordem da memória, do imaginário e da imaginação. Essa tríade fantástica que impregna o gesto cinematográfico,  os encontros do documentarista-câmera com o mundo ao qual se aproxima, as relações que se estabelecem entre documentarista e personagens, bem como a instância da fruição do espectador com a obra. 

Nessa perspectiva, do documentário como representação, como expressão de nossa mediação simbólica com o mundo, gostaríamos de propor que nesse encontro da obra com o espectador, constitui-se um terceiro espaço de enunciação simbólica (Homi Bhaba).  Esse espaço não é nem aquele da narrativa, nem aquele do espectador, mas, sim, um espaço que inclui os dois para formar um terceiro: desestabilizador, híbrido e intersticial. Acreditamos ser nele que as imagens urbanas se conformam e se recompõem, mobilizando um lugar onde a narrativa assume sua riqueza semântica e sua instabilidade de sentidos. Assim, as cidades propostas nesses documentários urbanos nascem nesse entre-lugar e se formatam em uma dinâmica frágil, instável e potente como é a imaginação. 

Eu acredito, portanto, que esses filmes que vamos ver expressam, cada um a seu modo, certa atmosfera do vivido, ao mesmo tempo em suas exibições ao público engordam o repertório imaginário do sentimento coletivo da vida urbana. 

O nosso curso: 
Apesar do título da nossa palestra remeter especificamente aos documentários brasileiros, vamos seguir um percurso que passa por algumas tradições documentais fundamentais para pensar os diferentes momentos de inscrição do imaginário urbano. E falamos em tradições porque embora elas tenham um momento de elaboração de seus aspectos estéticos e conceituais, são atualizadas ainda hoje nos documentários contemporâneos.  

Pra gente pensar a relação entre cinema e cidade vamos traçar um percurso que nos leve do olhar sem corpo do cinema nascente e das vanguardas de 20, passando pelo cinema-corpo que emerge no cinema moderno e chegando, enfim,  à câmera-prótese, a câmera da mão e da palavra, usando a expressão de Roth. Entre os anos 20 e os anos 60, porém, ainda teremos a desilusão da guerra e os filmes dos anos 50 que prenunciam as tradições inauguradas no cinema de som direto. 
É sob essa perspectiva que vamos tentar perceber como se dá inscrição do imaginário urbano nos documentários que vamos ver hoje. 
Um dos pontos, portanto, é perceber como essas tecnologias do imaginário suportes de diferentes origens como: película, vídeo, digital, webcams, celular  etc.)  possibilitaram ao homem urbano expressar o sentimento coletivo de viver nas cidades moderno-contemporâneas. 
Nessa “adequação com os movimentos dos homens” e do mundo traduzidas em formas sensíveis e expressivas, as antropólogas Eckert e Rocha , em reflexão acerca dos desafios de filmar a/na cidade, propõem que a evolução da linguagem cinematográfica revela a maneira dos cineastas apreenderem e reformularem criativamente as pulsações dos tempos urbanos, bem como de comunicá-los dramaticamente através das estéticas cinematográficas.
Nossa análise e observação, portanto, estará voltada para as histórias que esses documentaristas contam e como contam. 

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